O azul dos olhos-alma

Ela amava o jovem de olhos imensamente azuis. A cor desse par de olhos se contrastava com o azul do céu naquele lugar-paraíso em dias de verão, e do mar ainda despoluído também daquele lugar protegido pelas águas do Atlântico e pelas divindades que abençoam os oceanos. Clarisse tinha apenas catorze anos, mas sabia que era amor o sentimento que a entorpecia quando fitava o infinito azul daqueles olhos-céu, olhos-mar.

Daria pra beber todo azul do mar ...

O jovem Saulo era livre. Aos vinte e dois anos ele caminhava à beira mar, andava pela tarde verde-alaranjada do verão, e nas noites enluaradas que acalmavam o celeste dos seus olhos e te davam um pouco de paz.

Saulo nunca desconfiou do imenso amor de Clarisse. Era o amor platônico que na forma mais lírica e de senso comum passou a ser entendido como um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platônico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia.

Clarisse chorava muitas noites quando voltava para casa sem perspectiva. Encontros com Saulo eram tão diferentes dos idealizados na mente adolescente, romântica e ao mesmo tempo ardente de desejo da menina.

Clarisse via seu amor distanciar-se dela sempre em companhias femininas diferentes. Ela jamais foi uma delas. A menina passava noites em claro ensaiando o que dizer diante da alma de Saulo, que ela jurava conhecer profundamente. Os ensaios sempre terminavam em lágrimas. Como doía a realidade para Clarisse. O hiato entre ela e Saulo, medido pela realidade!

Como se as preces de Clarisse pudessem ser ouvidas pela corte divina do céu, Saulo numa dessas noites que a luz artificial conseguia intimidar um pouco sua incandescência, recostou Clarisse ao seu peito e dançou uma música lenta com ela.

Clarisse sentia seu coração disparar. Seus sentidos estavam entorpecidos, seu coração descompassou (e ela morria de medo de Saulo poder ouvi-lo). Por alguns segundos Clarisse pode sentir o que até então era sonho. E como num sonho, Clarisse sentiu seu corpo descolar por milímetros do de Saulo e se viu dentro do imenso azul dos olhos-alma de Saulo.

O azul dos olhos-alma de Saulo

Saulo não a beijou como Clarisse sonhava. Ele sorriu, aconchegou a menina novamente em seu peito e beijou sua cabeça, assim como um anjo faz com seus protegidos.  

A menina aceitou o aconchego esforçando-se para não explodir seu primeiro e mais belo desejo. Clarisse tinha medo. O medo legítimo de não ser amada com o mesmo diapasão. Recostada no ombro de Saulo a menina morria de medo de seu amado perceber que as lágrimas que rolavam de seus olhos podiam ser pela tristeza do desejo não concretizado ou pela alegria de sentir-se no céu em seus braços.

Saulo nunca soube da paixão de Clarisse. O tempo passou e a vida – como não podia ser diferente – tratou de guardar (muito bem guardada) essa parte da história no coração de Clarisse.  Sempre que sente saudade de saber e sentir o que realmente move o mundo, o que se chama de amor , Clarisse fecha os olhos e sente novamente o azul-céu, o azul-mar dos olhos de Saulo.

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8 responses to this post.

  1. Posted by Felícia on novembro 8, 2010 at 5:35 pm

    Adorei o texto,Parabéns!!!! Beijão

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  2. Posted by zelia cavalcanti on novembro 8, 2010 at 8:13 pm

    Parabéns Galega…Vc está demais!!

    Responder

  3. Posted by Shay on novembro 9, 2010 at 3:32 pm

    Lindo!!! Acho que todos nós temos um pouco de Clarisse (nome lindo!) e até mesmo, um pouco de Saulo, rsrsrsrssrsrsrs. Ficou ótimo! Parabéns!!!!

    Responder

  4. Posted by Menino mar on novembro 9, 2010 at 8:22 pm

    Alucinante esse texto que vc postou no seu blog
    Metade menina…metade Homem…Clarisse vivia proximo ao mar!
    Porem nunca teve a coragem de numa noite enluarada entrar vestida
    de mar para desvendar os segredos e poemas que Saulo para ela deixou
    no fundo do mar…Ela nao sabia que quatro fosflorescentes cavalos marinhos
    estariam sempre esperando ela entrar para fazer a ronda pelo caminho do fundo
    do mar…Ela por nao ter coragem suficiente nao pode jamais ouvir a doçe cançao
    que tocava no fundo desse mar azul…Saulo era homem do Mar! Livre ele sempre
    buscava suas mais fortes emoçoes no fundo desse mar… caminhos de algas que bailhavam
    sobre o som da musica que Clarisse nunca quiz escutar no fundo do mar…Agora depois de tantos
    anos Saulo vai um dia buscar os poemas e seus segredos deixados no fundo do mar…E lá quem sabe ele encontrará sobre uma pedra Clarisse transformada em Sereia deitada ouvindo a musica
    musica que Saulo deixou no fundo do mar!!!O tempo passou,Porem a musica sempre tocará!!

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  5. Posted by jack on novembro 9, 2010 at 11:15 pm

    Pense, numa mulher inspirada. Bjus

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  6. Tão lindo que dói.

    Responder

  7. Posted by Ludmyla Vicente on novembro 15, 2010 at 6:08 pm

    Texto seu? Muito bonito!!!
    Parabéns!!!!
    Bjuu

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